Kung Fu: uma experiência significativa

Tempo de leitura: 5 min

Escrito por Ricardo

Neste artigo irei falar da experiência de acesso à experiência do Kung Fu:

o Ving Tsun Kung Fu, enquanto uma prática, promove uma experiência muito familiar no chinês, a experiência do kung fu.

Um aspecto que eu vou tomar como relevante pra poder elucidar essa questão de acesso é a diferença entre uma lógica de modelo e uma lógica do processo.

Lógica de modelo

A lógica de modelo é uma lógica que vem sendo explicitada por vários sinólogos nativos ou não ativos. Eles tentam esclarecer um modo muito específico de pensar a realidade.

Para esses sinólogos, acostumou se a pensar a realidade a partir de uma interiorização dos problemas do mundo, nossos problemas pessoais. Uma sobrecarga de reflexões interiores para dar conta da realidade.

Em contraposição a esse formato ou essa lógica de modelo se apresenta a lógica do processo. Ela toma como base o pensamento chinês e toda a trajetória milenar que a cultura chinesa tem.

O que eles irão  dizer, grosso modo, é que a lógica de modelo implica em tentar resolver as questões a partir de idealizações dos acontecimentos da realidade.

Eu formato uma maneira de pensar algo que eu desejo realizar e vou me encaminhando para concretizar essa idealização na realidade, no mundo concreto. E com isso, o que muitas vezes acontece é forçar a realidade para dentro dessa indealiização.

Lógica de processo

A loja de processo contrário ela vai esclarecer um outro modo de se relacionar com essa mesma realidade, o que implica em não interiorizar. Por mais que eu me valha do potencial das minhas recordações, das minhas vivências, posso considerar todos os elementos que estão presentes na realidade e que são condicionantes das variações em cada situação que vem ao meu encontro.

Eessa diferença é crucial para aprender Ving Tsun Kung Fu, e entender essa caracterização específica do acesso a essa experiência.

O filósofo em sinólogo François jullien citando Lao Zi, na página 132 de sua obra O tratado da eficácia, nos concede uma descrição muito interessante. Em síntese o que ele vai nos dizer é que numa estratégia chinesa o mais importante é que nós deixemos que o efeito  venha a sua manifestação e que nos retiremos. É muito mais deixar o efeito prosseguir e a gente se retirar.

Deixar o efeito vir e se retirar

O que está em jogo quando discutimos a estratégia tipicamente chinesa é exatamente essa apreciação de vários elementos condicionantes numa situação. Ao invés de levarmos os problemas para o interior e tentarmos resolvê-los dentro de nós, nos valemos mais das coisas que estão fora, inclusive as nossas recordações.

Mas sobretudo aquilo que está fora. O andamento das coisas em geral e a contribuição das pessoas. Como elas estão se movendo e  o que elas têm para falar. Considerar a opinião de todos que estão participantes da situação em que eu me encontro. A opinião de todos é relevante, de cada pessoa que está ao meu alcance e que participa da minha vida.

O estrategista Kung Fu

O estrategista sempre considera a renovação da situação em seu processo. Aliado a essas contribuições do sinólogo Jullien, temos também a filósofa e sinóloga Anne Chen. Ela nos concede uma apresentação muito interessante do conceito de humanidade chinês.

Nesse conceito constituído de doisideograms: o ideograma (ou caracter) de pessoa, e o idegrama do número 2, em chinês,  está implícito uma diferença muito grande no pensamento.

A junção desses dois programas ela nos relembra que a maneira com que o mundo se abre para mim, como é a realidade se abre pra mim, ela já se abre com o outro presente.

Ressignificando o artístico e o marcial no Kung Fu

Isso deveria fazer uma diferença muito grande para nós. Em nossa prática nós estamos sempre lembrando essa conexão. Além do mais, com essas características diversas referentes ao acesso, é possível a gente pensar a arte marcial de uma maneira mais artística e ressignificando o termo marcial também; em que sentido?

Ora, podemos pensar exatamente uma arte marcial que nos permita ter um desenvolvimento para além das demandas de defesa pessoal que são legítimas. E pensar tantas outras que podem ser trabalhadas em paralelo. Sobretudo, não fecharmos essa questão para outras maneiras de lidar com arte marcial.

Porque nós nos preocupamos em pensar a arte marcial no mundo moderno, atendendo a uma melhoria de nossa conduta no tocante às nossas relações pessoais, mas também as nossas tarefas diárias profissionais.

Ou seja, eu posso dar um pouco mais importância a uma defesa pessoal tipicamente de combate, mas posso também dar importância a outros modos de me relacionar com arte marcial.

Cuidando de outros setores da minha vida, quantos eu quiser. A minha vida é muito mais ampla do que meramente me preparar para uma defesa pessoal por mais que ela  seja importante.

Eu posso oscilar e alternar essa importância no percurso de minha prática no Ving Tsun Kung Fu, conforme há tempos vem nos ensinando nossa anestralidade. 

O sentido ampliado do termo Defesa Pessoal no aprendizado do Kung Fu

Com isso nós podemos pensar um acesso como um elemento que nos torna adaptáveis muito mais além da demanda quase que hegemônica da defesa pessoal no sentido do combate real ou competitivo.

Se partimos do potencial inscrito numa situação, nós podemos estar muito mais abertos ao caráter de ineditismo, de novidade de uma situação. Nós nos colocamos numa conduta de antecipação, ao invés de reinventar passado, deixamos em aberto o futuro pra podermos perceber as diferenças daquilo que vem ao nosso encontro.

O acesso discutido desse modo peculiar nos permite ser mais pra fora, e  com isso, reconhecer o outro como essencial para um ambiente de convivência,.

Mas também reconhecer um teor de responsabilidade muito mais aflorado da vida que é minha. Uma responsabilidade sobre minha vida, mas também uma  responsabilidade junto ao outro.

A prática do Ving Tsun, enquanto expressão do Kung Fu, por ser diferente, exótica, não familiar, nos proporciona um outro olhar, um olhar proveniente da cultura chinesa.

O tema dsse artigo, experiência de acesso trouxe à tona algumas características do Ving Tsun Kung Fu, dentre tantas outras existentes. Mas também chamou a atenção para a importância de repensarmos a nossa relação com o outro. Em outro artigo  falo um pouco mais sobre isso com o tema: Kung Fu nos 365 dias do ano.

Poderá ver o vídeo no youtube Aqui

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